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Regulamentação na área de saúde agita mercado de TI Imprimir E-mail
Por André Borges e Camila Rodrigues, do COMPUTERWORLD
Publicada em 24 de maio de 2006 - 16h29


Convênios médicos, hospitais e profissionais de saúde correm contra o tempo para se integrarem ao novo sistema de padronização de informações criado pela ANS.


Integração de sistemas de gestão, armazenamento de dados, serviços via web, transações em tempo real. Assuntos já tão corriqueiros em determinadas indústrias nunca figuraram entre as prioridades do setor de saúde, área que, aliás, tem razões de sobra para voltar seus esforços para o que realmente é sua função.


Mas o fato é que as tecnologias da informação, talvez inspiradas pelo desenvolvimento científico que sempre foi o coração deste segmento, também estão se tornando vitais para uma boa prestação de serviços de saúde, além de garantirem a viabilidade econômica de empresas e profissionais deste setor.


O que até agora era uma tendência, ganhou status de lei. Desde o ano passado, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) vem trabalhando em um sistema de Troca de Informação em Saúde Suplementar (Tiss). É com este padrão que a agência pretende integrar as trocas eletrônicas de informações administrativas e financeiras entre as operadoras de planos de assistência à saúde e os prestadores de serviços do setor, incluindo clínicas especializadas, hospitais e profissionais liberais.


Além da criação de um único repositório de dados, o Tiss pretende, entre outras ações, padronizar o vocabulário do setor por meio de uma única estrutura. Para isso, inclusive, a ANS optou pela linguagem XML, para facilitar a transmissão de dados.


Para apoiar a migração de pequenas empresas do setor e o trabalho de profissionais liberais, a agência tratou, inclusive, de desenvolver um sistema (AplicaTiss) para facilitar a adequação às novas regras. “A ANS vai distribuir gratuitamente esse aplicativo para os planos de saúde e prestadores de serviço, mas não é algo obrigatório, apenas uma opção”, explica a gerente de padronização de informações da diretoria de desenvolvimento setorial da ANS, Jussara Rötzsch Macedo.


Uma das responsáveis pela iniciativa, Jussara afirma que o projeto eliminará o uso de papel e a comunicação fragmentada, unificando formulários e processos. Como exemplo de benefícios, ela cita o caso dos Estados Unidos. Por lá, um tipo de padronização semelhante ao proposto pela ANS foi criado em 2003. A partir da padronização, o segmento de saúde passou a gerar uma economia anual de 88 bilhões de dólares ao trocar suas transações realizadas em papel para o meio eletrônico.


“Isso equivale a mais de 5% dos gastos de saúde nos EUA. Esta é a economia gerada pela troca eletrônica, que diminui erros, retrabalhos, melhora a qualidade de informação, reduz as glosas e os custos indiretos”, diz.


Questão de tempo


Realmente parece que ninguém duvida das boas intenções da ANS. Tanto que a iniciativa do Tiss conta com o apoio maciço de todos os prestadores de serviços, entidades e convênios de saúde ouvidos pela reportagem. “É preciso que todos adotem uma linguagem comum. Para nós, é um projeto que soa muito bem aos ouvidos”, resume o doutor Arlindo de Almeida, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), organização que conta com 300 operadoras de saúde associadas.Mas se não faltam elogios ao projeto, também não são poucas as críticas, principalmente quando o assunto são os processos tecnológicos envolvidos e os prazos fixados pela ANS. A Agência, que trabalhava com o mês de julho para estréia de uma primeira fase do Tiss, já decidiu prorrogar este prazo para dezembro.


“A ANS quer algo muito positivo, mas da forma como os prazos estão estabelecidos fica difícil cumpri-los. Acredito que é algo que será prorrogado novamente”, comenta o gerente de sistemas da Unimed Paulistana, Sérgio Pironato Júnior.
Se uma empresa do porte da Unimed vê dificuldades no cumprimento de prazos, o que se dirá dos milhares de laboratórios e clínicas espalhados pelo País. Ao sentir a pressão da ANS, a Unimed foi mais uma das grandes empresas do setor que decidiu se adiantar para aderir ao padrão de troca de dados. Um comitê foi criado pela empresa ainda no ano passado para começar a entender as idéias da agência.


“Fizemos um workshop para contextualizar o assunto entre os principais gestores da empresa. Criamos um grupo de trabalho com profissionais diretamente envolvidos com o projeto, unindo as áreas de negócios”, conta Pironato Júnior, acrescentando que as tarefas do Tiss tiveram início em fevereiro.


Quem paga a conta?


Cerca de 600 horas de trabalho é o que a Unimed calcula já ter gasto com o projeto Tiss, envolvendo diretamente nove funcionários. O resultado até agora são evoluções no que se refere à padronização de guias e formulários. “Estamos adiantados na parte de terminologia e uso de códigos”, comenta Pironato Júnior.


No entanto, fatores básicos como sistemas de comunicação para troca eletrônicas e critérios para armazenamento de dados ainda são questões nebulosas para o gerente de sistemas da Unimed. “Com certeza é algo que vai tomar uma boa parte do nosso orçamento de TI, mas não tem jeito, teremos que fazer”, complementa.O jeito é tentar dividir a conta com os prestadores de serviços. Segundo o diretor de sistemas da Sulamérica, Roberto Marucco, é preciso que haja coesão em todo o setor para que o projeto vá para frente. “Nós somos só um elo nessa cadeia. Hospitais e laboratórios também precisarão estar preparados para isso. O objetivo é grandioso, mas o prazo é muito ingrato”, afirma o executivo, acrescentando que o Tiss deve ser tratado de maneira segmentada, dando prioridade a determinados serviços que a serem integrados numa primeira etapa.


A Sulamérica também formou um grupo para liderar o projeto, no entanto, segundo Marucco, ainda não foi possível mensurar o quanto a iniciativa abocanhará de seu orçamento. “Não mensuramos valores, mas é algo tido como uma prioridade. Realinhamos nossas ações para isso e estamos readequando verbas”, disse.


Como a integração de sistemas envolverá diversos serviços, o executivo diz que vem trabalhando para empacotar o maior número possível de operações. “Vamos contratar uma empresa para tocar esse projeto, por isso queremos formatá-lo para trabalhar com um único parceiro”, explica Marucco, acrescentando que a Sulamérica deve ir ao mercado em junho para comprar o desenvolvimento das aplicações. Atualmente, já são parceiras da operadora empresas como DBA, Stefanini e BRQ.


Operação sem riscos


Um estudo feito no final de 2005 pelo Gartner deixa bem claro porque os agentes de saúde são os mais interessados em integrar suas operações. Até 2009, os investimentos de TI deste setor devem crescer em 50%. A razão por trás disso, segundo o instituto de pesquisas, é que essa maturidade tecnológica permitirá que hospitais e clínicas cortem pela metade o número de potenciais riscos de morte até 2013. Em outras palavras, a integração tecnológica permitirá que se chegue mais rapidamente a diagnósticos precisos, o que significa salvar mais vidas e, consequentemente, gerar mais recursos.


Sabe disso o Hospital 9 de Julho, de São Paulo. “Os benefícios são enormes, passaremos a ter um único prontuário”, comenta o gerente de tecnologia do hospital, Luiz Carlos Suart Júnior.


Contudo, tal qual seus colegas do setor, Suart Júnior admite que ainda há muita dúvida em torno dos mecanismos técnicos que suportarão o Tiss. “A ANS criou um modelo de trabalho, mas não estabeleceu como vai ele ser. Realmente temos muitas dúvidas na infra-estrutura, ainda não sabemos onde hospedar dados e de que forma será essa base de informações”, relata.Preocupado com o assunto, o 9 de Julho reuniu seus parceiros Salutia, Polimed e Dativa para discutir o padrão. A MV Sistemas, responsável pelo sistema de gestão, também foi acessada. “Nosso benefício é que já tínhamos previsto em contrato que qualquer mudança imposta pelo governo deveria ser feita sem qualquer custo. A MV integrará nossa solução até fim de maio”, afirma o executivo.


A partir de junho, o 9 de Julho começa a testar o Tiss com duas operadoras de grande porte, uma delas a Unimed Nacional. “Vamos ver se estamos nos entendendo. De maneira geral, acho que não conseguiremos cumprir o prazo da ANS, mas isso também não significa que não tentaremos.”


Trabalhando contra o relógio, o Hospital Mãe de Deus, que concentra seis unidades no Rio Grande do Sul, quer finalizar seu projeto daqui a cinco meses. Quanto já foi gasto na iniciativa? “Cerca de 2 milhões de reais”, comenta o gerente de TI do hospital, Rogério Rodrigues da Cunha.


A expectativa do Mãe de Deus é rever seu investimento em apenas um ano após sua implementação. É a prova de que o projeto pode gerar retorno financeiro no curto prazo, e vidas de longo.


Padrão agita mercado de sistemas


Independentemente do Tiss, as fabricantes de soluções acreditam em um tardio amadurecimento da área de tecnologia do setor. “As operadoras têm sentido que, sem sistema de gestão, não conseguem administrar seu estabelecimento”, observou Danilo de Deus, gerente do segmento de saúde da RM Sistemas.


O mesmo raciocínio é compartilhado pelo presidente da fornecedora Benner, Severino Benner: “Há ainda um grande número de empresas que utilizam sistemas internos, mais focados em controlar o uso dos serviços do que em gerenciar a saúde do paciente”, comenta o executivo, projetando um aumento de 20% em suas vendas para este segmento após a implementação do Tiss.


Essa necessidade também tem sido percebida por outras prestadoras de serviço de TI, como a Totvs e a Tivit, que compraram, respectivamente, a própria RM Sistemas e a Salutia, ambas com experiência no setor de saúde. A Tivit, que detinha apenas quatro clientes nessa área, somou 25 contas à sua carteira, e agora passa a oferecer soluções completas de TI para o segmento. “Este é um mercado com mais de duas mil assistências médicas, ainda com muita carência de integração de informações”, observou a diretora de e-business da empresa, Gemma Rebollo.


Genilson Cavalcante, diretor de tecnologia da MV Sistemas, que está focada exclusivamente nesse setor, conta que a empresa já implementou 150 tipos de layouts para troca eletrônica. “Com o Tiss, quem desenvolve sistemas deixará de gastar com desenvolvimento de novos padrões e adotará apenas um”.


O executivo acredita que muitos clientes não terão que fazer grandes investimentos para se adequarem à nova regra. “A maioria dos contratos prevê atualização gratuita quando há mudanças legais”, observa. A RM Sistemas e a Benner confirmam a regra e a última divulga que, para realizar as mudanças no sistema, investiu 800 mil reais; a MV Sistemas aplicou 120 mil reais. A RM preferiu não informar esse valor.As companhias consultadas afirmaram que o trabalho de adequação foi realizado junto ao mercado de saúde e a ANS, sem a necessidade de consultorias. A partir de junho, as empresas começarão a disponibilizar os sistemas atualizados.


Entenda a padronização proposta pela ANS


O que é o TISS?


A Troca de Informação em Saúde Suplementar é o sistema estabelecido pela ANS que tem como objetivo principal padronizar as trocas eletrônicas de informações administrativas e financeiras. São obrigados a adotar o padrão TISS as operadoras de planos privados de assistência à saúde e os prestadores de serviços de saúde.


Qual é a finalidade do padrão eletrônico nacional?


O sistema irá simplificar os processos envolvidos no sistema de saúde suplementar, reduzindo custos administrativos tanto para as operadoras quanto para os prestadores de serviço.


Quem deverá adotar?


Todas as operadoras de planos privados de assistência à saúde, exceto as operadoras classificadas como administradoras de plano. Os prestadores de serviço também adotarão o padrão. São hospitais gerais e especializados; pronto-socorro especializado ou geral; clínica especializada/ambulatório de especialidade; consultório isolado, odontológico; e profissionais de saúde ou pessoas jurídicas que prestam serviços em consultórios, entre outros.


Fonte: ANS
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